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O nudge viola a autonomia individual, ao inclinar as escolhas de forma invisível, em prol de terceiros.

Trechos extraídos ou texto replicado na íntegra do site: Twitter de Michael O’Fallon.
Autoria do texto: Michael O’Fallon.
Data de Publicação: .
Leia a matéria na íntegra clicando aqui. Twitter de Michael O’Fallon


O conceito de “empurrãozinho”, tal como é entendido hoje, foi desenvolvido principalmente por Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein. Eles popularizaram a ideia em seu influente livro de 2008, Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness. “[Empurrãozinho: Aprimorando as Decisões sobre Saúde, Riqueza e Felicidade.]

A ideia central é que as escolhas das pessoas podem ser influenciadas pela maneira como as opções são apresentadas, o que elas chamam de “arquitetura de escolha” Em vez de coagir as pessoas ou proibir escolhas, governos, empregadores ou organizações podem projetar ambientes que orientem suavemente os indivíduos para decisões que o designer acredita serem benéficas.

O método de “empurrãozinho” é direcionar o comportamento em direção aos resultados preferidos por quem projeta a “arquitetura de escolha”, seja um governo, uma corporação, uma universidade, um empregador ou uma plataforma tecnológica.

Twitter de Michael O’Fallon

LifeLog, um projeto iniciado pela DARPA* em 2003, foi um esforço de pesquisa do Departamento de Defesa que visava construir um grande banco de dados digital pesquisável que narrasse toda a vida de um indivíduo.

O objetivo do programa era registrar sistematicamente atividades diárias, conversas, locais e consumo de mídia para apoiar o treinamento de inteligência artificial. Foi cancelado repentinamente, em 2004, em resposta a sérias preocupações com privacidade (em 4 de fevereiro de 2004, o dia exato em que o Facebook foi lançado).

O projeto propôs reunir um diário abrangente e interligado de tudo o que um indivíduo viu, ouviu, leu, tocou* ou comprou. Isso incluía chamadas telefônicas, e-mails, localizações de GPS, transações financeiras e dados biométricos.

Os pesquisadores teorizaram que, ao alimentar essa enorme biblioteca de experiência humana em algoritmos,o sistema poderia aprender a inferir rotinas, criar modelos de relacionamentos e prever comportamentos ou decisões futuras.

O Facebook contratou a ex-diretora da DARPA, Regina Dugan, em 2016, para liderar seu laboratório experimental de pesquisa de hardware, o Edifício 8.

Twitter de Michael O’Fallon

Capa brasileira

Questões Éticas do Nudge

A teoria do empurrãozinho é a teoria que altera sutilmente a “arquitetura da escolha” em torno de decisões para orientar as pessoas em direção a certos resultados de maneiras previsíveis, sem que haja necessidade de proibições, mandatos ou grandes mudanças nos incentivos.

A teoria do Empurrãozinho propõe que mudanças sutis na forma como as escolhas são apresentadas – por meio de opções predefinidas que se aplicam automaticamente se nada for feito, ou sinais salientes** que fazem com que certas opções se destaquem mais vividamente – podem direcionar as pessoas em direção aos comportamentos desejados enquanto deixam alternativas formais intactas.

Os proponentes argumentam que esta abordagem melhora os resultados em saúde, economia ou conformidade ambiental a baixo custo. No entanto, ao examiná-lo mais de perto, a estrutura revela profundas inconsistências com os princípios da liberdade, responsabilidade pessoal e humildade intelectual Em sua essência, o paternalismo libertário – a etiqueta filosófica ligada ao incentivo – é uma contradição inerente. Afirma-se libertário ao preservar as possibilidades de exclusão e evitar a coerção direta, mas é paternalista ao encarregar uma pequena classe de designers com a engenharia do ambiente de decisão para produzir resultados que consideram superiores. Se os mecanismos psicológicos forem eficazes o suficiente para mudar o comportamento de forma confiável por meio da inércia ou do aumento da atenção, então a influência opera abaixo do nível da plena consciência, funcionando mais como uma direção disfarçada do que como uma facilitação neutra. Isso mina o consentimento genuíno. A verdadeira liberdade exige não apenas a ausência de proibições, mas ambientes que não explorem sistematicamente atalhos cognitivos para fins predeterminados. Quando opções predefinidas ou a saliência** se tornam ferramentas políticas, correm o risco de se transformar em manipulação, onde a aparência da escolha mascara a influência direcionada. Essa tensão expõe um problema adicional de arrogância.

Os defensores do empurrãozinho posicionam-se ou as instituições aliadas como “arquitetos da escolha” qualificados, capacitados para definir o que constitui a melhor decisão para milhões de indivíduos com circunstâncias, valores e conhecimentos muito diferentes. Tal presunção desconsidera os limites da expertise centralizada e o valor do insight pessoal disperso.

As aplicações do dia a dia ilustram a questão: proliferam slogans e sinais ambientais nos produtos de consumo, muitas vezes motivados pela saliência do mercado e pela conformidade social, em vez de uma ciência precisa e incontestável. Previsões de ativistas anteriores sobre o colapso civilizacional por prazos específicos que não ocorreram demonstram como a formulação baseada no medo pode influenciar o comportamento e as políticas públicas, mesmo quando as linhas do tempo subjacentes mudam. Estes exemplos mostram como os empurrõezinhos podem amplificar narrativas seletivas, priorizando a conformidade em vez de um debate transparente.

Críticos robustos, fundamentados na psicologia evolutiva e na observação prolongada da conduta humana, articularam essas falhas de forma eficaz. Gad Saad, baseando-se em princípios evolutivos, adverte contra intervenções comportamentais que tratam os humanos como lousas em branco suscetíveis ao ajuste de cima para baixo. Ele enfatiza que nossa psicologia evoluiu para a autonomia, a gestão da reputação e a tomada de decisão adaptativa em ambientes complexos; o empurrãozinho sistemático os contorna, substituindo a agência individual pela arquitetura especializada, muitas vezes promovendo objetivos ideológicos sob o pretexto da melhoria do bem-estar.

Vozes semelhantes na tradição mais ampla de investigação cética da engenharia social salientam que a retirada dos atritos naturais – por meio de opções predefinidas sem esforço ou saliência manipulada – enfraquece o desenvolvimento do caráter. As pessoas constroem responsabilidade e sabedoria precisamente ao fazer escolhas, vivenciar consequências e exercer um julgamento deliberado. Quando, constantemente, sinais externos manipulam o ambiente de escolha, a capacidade de autorregulação se atrofia, fomentando a dependência exatamente dos arquitetos que afirmam ajudar.

Esses argumentos alinham-se com uma defesa mais profunda da liberdade e da responsabilidade. Pensadores judiciosos rejeitam a noção de que os especialistas possuem conhecimento suficiente para anular a soberania pessoal em vários domínios, especialmente quando os incentivos no meio acadêmico, no governo ou nas empresas podem distorcer o que é considerado “melhor”. O incentivo pode gerar mudanças agregadas marginais em alguns contextos, mas ao custo potencial de corroer as virtudes internas – resiliência, reflexão e propriedade moral – que sustentam sociedades livres e florescentes. Em vez de uma manipulação sutil por meio da arquitetura da escolha, o caminho mais poderoso está nas regras transparentes, na informação honesta e no cultivo da agência pessoal. Ao confrontar estas críticas, reconhecemos que o incentivo não é uma ciência neutra, mas um exercício contestado do poder, que exige um escrutínio rigoroso se a liberdade individual quiser manter-se relevante.

O Jardim das Delícias Terrenas,
por Hieronymus Bosch

A Psicologia Bíblica a Favor da Agência Moral

A Bíblia não aborda diretamente o “empurrão” como um conceito moderno de ciência comportamental, mas apresenta uma rica psicologia da tomada de decisão humana, influência, tentação, livre-arbítrio e responsabilidade, que fala diretamente aos seus princípios. As Escrituras retratam os seres humanos como agentes morais responsáveis cujas escolhas importam eternamente, ao mesmo tempo que advertem extensivamente sobre enganos sutis, a falibilidade do coração não renovado e os perigos da influência manipuladora. Esses temas, em grande parte, lançam uma luz cautelosa ou crítica sobre técnicas que direcionam o comportamento de forma sutil, por meio do design ambiental ou de alavancas psicológicas ocultas.

A Natureza Humana e a Mente Enganadora

Central à psicologia bíblica é o diagnóstico do coração humano. (a sede da compreensão, vontade e motivos). Jeremias 17:9 afirma: “O coração é enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente doente; quem pode entendê-lo?” Isto ressalta que as motivações e julgamentos internos são propensos ao autoengano. Jesus reforça isso em Marcos 7:21-23, listando maus pensamentos, engano e outros pecados como fluindo “do coração do homem”.

Muitas vezes, o empurrãozinho funciona explorando preconceitos, inércia e saliência, alavancando exatamente o tipo de tendências não examinadas que a Bíblia classifica como pouco confiáveis. Em vez de projetar arquiteturas externas para guiar as pessoas, a Escritura pede uma transformação interna e um cuidadoso autoexame. Provérbios 4:23 ordena: “Guarda o teu coração com toda a vigilância, para que dela jorrem as fontes da vida.” Proteger o próprio coração e buscar sabedoria de Deus (Tiago 1:5) é uma prioridade em relação a confiar em arquitetos externos.

Livre-arbítrio, Responsabilidade e Escolha

A Bíblia afirma reiteradamente a agência moral significativa e a responsabilidade pessoal. Deuteronômio 30:19 apresenta uma escolha clara: “Eu coloquei diante de ti a vida e a morte, bênção e maldição. Portanto, escolhe a vida.” Josué 24:15 reitera isto: “Escolham este dia a quem servirão.” Estas e muitas outras passagens enquadram a tomada de decisão como deliberada, consciente e consequente. As pessoas são responsabilizadas por suas ações, não justificadas por pressões ambientais ou influências sutis. Essa ênfase em escolha consciente e responsabilidade está em tensão com a dependência do empurrãozinho no padrão e no direcionamento inconsciente. Se o comportamento for previsivelmente alterado sem plena consciência, corre-se o risco de diminuir a própria responsabilidade que a Bíblia considera fundamental para a justiça, o arrependimento e o crescimento. Romanos 14 e 1 Coríntios 8, por exemplo, enfatizam a importância da consciência informada em vez do cumprimento manipulado. Repetidamente a escritura condena a manipulação sutil e adverte contra os que enganam os outros por meios indiretos. Em Gênesis 3, a serpente usa uma formulação inteligente e uma verdade parcial para dar um empurrãozinho a Eva à desobediência, apresentando o fruto proibido como desejável e minimizando as consequências. Este arquétipo de influência enganosa se repete: falsos mestres, oradores suaves e aqueles que “aguardam para enganar” (Efésios 4:14). Provérbios adverte contra a lisonja e os lábios astutos, enquanto Jesus adverte contra lobos vestidos de ovelha (Mateus 7:15). O uso de saliência e opções predefinidas por parte do empurrãozinho pode se assemelhar a essas formas de direcionamento indireto. A Bíblia não comemora a influência oculta por fins “bons”; ela exige transparência e verdade. Colossenses 2:8 adverte: “Vede que ninguém vos prenda por filosofia e engano vazio.” As figuras de autoridade são chamadas à liderança do servo e a instruções claras (por exemplo, pais, anciãos e governantes em suas esferas próprias), não à engenharia psicológica que contorna a vontade.

Sabedoria, Discernimento e Mente Renovada

A psicologia bíblica contrasta o coração natural enganador com a mente renovada. Romanos 12:2 exorta: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que, provando, discernem qual seja a vontade de Deus.” Provérbios está cheio de apelos para buscar sabedoria, compreensão e processos ativos de discernimento e busca da verdade, em vez de respostas passivas a sinais ambientais. O temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Provérbios 9:10), orientando toda a pessoa em direção à justiça por meio do alinhamento consciente com a vontade revelada de Deus. Essa estrutura favorece a persuasão aberta, o ensino e o exemplo em detrimento dos sutis impulsos arquitetônicos. Os apóstolos raciocinavam, suplicavam e proclamavam com clareza a verdade (Atos 17:2-3, 2 Coríntios 5:11), apelando à mente e à consciência em vez de explorar preconceitos de forma disfarçada.

Autoridade, Paternalismo e o Perigo do Excesso

A Bíblia afirma a autoridade legítima (pais, governo, líderes da igreja) mas estabelece limites rigorosos. Os governantes são ministros da justiça, não formadores de almas por meios ocultos (Romanos 13). O paternalismo exagerado que trata os adultos como filhos perpétuos a serem guiados contradiz o movimento bíblico em direção à maturidade e autocontrole (Gálatas 5:22-23, Hebreus 5:14). A verdadeira liderança prepara as pessoas para uma liberdade responsável, em vez de gerenciá-las por meio de ambientes de escolha projetada.

Em resumo, a psicologia da Bíblia enfatiza uma natureza humana caída, mas responsável, a necessidade de transformação a nível do coração, discernimento vigilante contra o engano, e escolha moral consciente. Oferece pouco apoio para uma orientação comportamental sutil e não transparente e, em vez disso, alerta contra influências que contornam ou minam a vontade, a consciência e a responsabilidade. O caminho que ela recomenda é a renovação da mente, a busca pela sabedoria e o alinhamento aberto com abordagens de verdade que priorizam a integridade e a agência em vez de resultados otimizados por meio de um design inteligente.

Adão e Eva,
por Peter Paul Rubens

* DARPA – sigla para Defense Advanced Research Projects Agency (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa). É uma agência do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, criada em 1958 após o lançamento do Sputnik pela União Soviética. [en.wikipedia.org]

Sua missão principal é desenvolver tecnologias de ponta e inovadoras para a segurança nacional americana — muitas vezes chamadas de “tecnologias surpresa” (tecnologias disruptivas que podem dar vantagem estratégica). Ela é conhecida por financiar projetos de alto risco e alto impacto, sem se prender a burocracia excessiva. [darpa.mil]

Principais contribuições conhecidas

  • Internet (origem no ARPANET);
  • GPS;
  • Drones e veículos autônomos;
  • Tecnologias stealth (aviões invisíveis ao radar);
  • Interfaces de voz e computação pessoal;
  • Avanços em vacinas (ex.: contribuições para a mRNA), entre muitos outros.

O projeto LifeLog (2003-2004), é um programa da DARPA, que pretendia criar um enorme banco de dados com a vida inteira de uma pessoa (conversas, locais, compras, etc.) para treinar inteligência artificial. Foi cancelado por preocupações com privacidade, no mesmo dia em que o Facebook foi lançado. O post liga isso a temas de vigilância, IA e influência comportamental (como o conceito de “empurrãozinho”). Muitos projetos da DARPA são militares, mas vários acabam tendo impacto civil enorme.

** Saliência – na psicologia é a qualidade que faz algo se destacar e chamar atenção, seja por brilho, contraste, emoção ou relevância. O cérebro prioriza estímulos salientes, influenciando percepção e decisões.

Imagem:
Um checkstand é o expositor posicionado na saída ou nas áreas de caixa de lojas e supermercados. O nudge (termo da economia comportamental) é um “empurrãozinho” que guia o cliente a tomar uma decisão de forma sutil e natural. No ponto de venda, ele estimula a compra por impulso no momento em que a atenção e a espera na fila convergem.

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Editorial

Colunista do Conselho Internacional de Psicanálise.

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