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“alteração [...] na direção do embrutecimento dos sentimentos, pensamentos e comportamento.” T. Dalrymple

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A sociedade do culto ao prazer é infeliz

A concepção moderna de liberdade se volta à realização dos desejos e aspirações do homem. Essa liberdade propicia a busca por melhorar a qualidade da existência do indivíduo e suas chances de sobrevivência, mas também possibilita a dedicação a outras atividades. Pier Vicenzo Piazza, em Homo Biologicus, diz que o caminho do homem rumo à liberdade deu-se na forma do indivíduo poder “ser em grande parte dono da riqueza que produz e utiliza, primeiramente para continuar vivo, depois para se divertir. A liberdade moderna baseia-se nesses dois pilares.” Os recursos elevadíssimos que nossa sociedade dedica ao entretenimento, mostra que o homem moderno aspira viver para poder se divertir. Essas atividades se reúnem em esportes, espetáculos, jogos, danças, artes em geral e, claro, drogas e sexo. Para o cristianismo, via Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, a liberdade seria a superação e o controle dos instintos, o fundamento da responsabilidade do indivíduo diante das leis morais, penais e divinas. Para Aristóteles e os epicuristas, a liberdade seria o uso da razão para avaliar o desejo espontâneo e, conhecendo as consequências de nossos atos, dispor da possibilidade de satisfazê-los ou não. A busca de soluções práticas e existenciais para o problema da felicidade humana, sempre despertou o interesse da filosofia, produzindo escolas filosóficas que criaram à sua maneira uma ética da felicidade. O Estoicismo não vê meio termo entre vício e virtude, o universo é governado pela razão, o supremo bem e a suprema felicidade consistem em participar da racionalidade cósmica. Para o Epicurismo o prazer é o princípio e o fim da vida moral, o que gerou acusação de devassidão, mas o epicurismo também prega prudência e a razão, controlando sentimentos e paixões. Vicenzo escreve que a nossa biologia se constrói em busca da liberdade de continuar vivo, acompanhada da reivindicação de felicidade e diversão. Felicidade e prazer, apesar de muitas vezes serem percebidos como equivalentes, não são os mesmos estados. Felicidade é uma sensação de plenitude que vem do equilíbrio e ausência de necessidades, o prazer é um estado que se afasta do equilíbrio em direção ao excesso, até aquilo virar o centro da vida, levando no dizer de Theodore Dalrymple a uma “alteração da sensibilidade moral, na direção do embrutecimento dos sentimentos, pensamentos e comportamento.” Sexo e drogas estão na linha de frente das discussões do direito ao prazer e dos limites da liberdade. Dalrymple diz que as drogas não trazem liberdade, antes a limitam, ao diminuir a amplitude dos interesses de quem as usa e a liberdade sexual, apesar de sua aparente irrevogabilidade social, não produziu tranquilidade mental, mas confusão, contradição e conflito. Os homens constroem suas civilizações em torno de poucas atitudes fundamentais, espiritualismo e materialismo, conservadorismo e progressista, os conservadores via de regra são espiritualistas, os progressistas quase sempre materialistas. As práticas espiritualistas buscam a felicidade, as materialistas, o prazer. O equilíbrio e a parcimônia tem perdido espaço no modo de viver da maioria das pessoas, o materialismo tem predominado na forma de acumulação de bens e na busca do prazer. A busca da felicidade no cristianismo consiste muito em controlar prazeres que afastam o equilíbrio. Isso pode ser visto nos pecados capitais, que versam sobre coisas que levam a prazeres além das necessidades para a felicidade, como avareza, luxúria, sexo, gula. O conflito entre prazer e felicidade, indica a existência dos dois como entidades separadas, o prazer normalmente é efêmero, enquanto que os esforços para obtê-lo se prolongam por muito tempo. Quando a busca da felicidade aponta para a moderação dos prazeres é porque os prazeres findam por serem ameaças à felicidade. Os prazeres permitem ao organismo a superação de desconforto pela abstração da felicidade, mas adverte Vicenzo, “o prazer ao substituir a felicidade pode aniquilá-la.”

O autor é médico e Pres. SinmedRN

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