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Os três tratam do risco da obediência, mas não levaram em consideração a moral dos voluntários.

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Possivelmente, o mais desconcertante dos mistérios que emanam do autoritarismo de lockdown global contínuo é o pensamento recorrente sobre a maneira como os outrora políticos comezinhos e policiais simplórios se transformaram, da noite para o dia, em tiranos. Observamos a síndrome transmitida quase diariamente no mês passado da Austrália, onde o primeiro-ministro de Victoria, Daniel Andrews […]. Tendo encarcerado seus cidadãos anteriormente soberanos em suas casas e emitido proibições contra protestos e dissidências, ele se apresenta diariamente perante a imprensa para ofuscar questões sobre a saúde pública. Ele também não encontrou uma escassez de tenentes capazes na força policial de Victoria, que alegremente prendem mulheres grávidas por se oporem a essa tirania no Facebook, ou arrastam cidadãos de seus carros por se recusarem a obedecer a seus comandos, ou colocam máscaras como se fossem coroas de espinhos em cidadãos subjugados uma vez que presos. Tudo isso em nome do ‘bem comum’.

No momento, Victoria lidera o caminho. Mas os últimos seis meses geraram inumeráveis ​​pretensos tiranoss ao redor do globo, reconhecíveis não apenas na desumanidade de seus ditames, mas no sadismo visível de seu comportamento: o ministro britânico que periodicamente reflete sobre se ele permitirá que crianças abraçem seus avós no Natal, a autoridade da saúde irlandês, que foi ao gabinete com uma proposta que permitiria à polícia invadir as casas das pessoas e fazer uma contagem de todos os visitantes ali encontrados.

[…]

[…] Agora vemos, através de nossas janelas da frente, a circunstância precisa sobre a qual Orwell estava alertando, enquanto nos inclinamos em direção ao novo normal, a Grande Restauração, a Nova Ordem Mundial, a distopia que pensávamos ser uma invenção de imaginações novelísticas febris. […]

Como essas coisas podem acontecer em nossas sociedades gentis? Como eles puderam fazer isso conosco? De onde eles rastejaram, esses ditadores idiotas emergiram? O enigma da inescrutabilidade do mal surge, mais uma vez, acima do horizonte que antes parecia tão reconfortante.

Esses eventos nos dizem que, apesar de todas as lições que possamos ter aprendido com a história, nossa compreensão do mal permanece mais rudimentar do que é bom para nós. Apesar de todas as advertências, havíamos sucumbido novamente ao pensamento de que a desumanidade surge unicamente de ideologias extremas de, por exemplo, tribalismo ou das ações de indivíduos anormalmente patológicos, monstros com bigodes estranhos.

O enigma do mal humano há muito tempo vem obcecado cientistas sociais, e 1961 foi um ano em que a questão parecia render alguns novos insights. Naquele ano, o julgamento do burocrata nazista Adolf Eichmann em Jerusalém suscitou da pena de Hannah Arendt uma frase que parecia dizer algo novo: ‘A banalidade do mal’.

Eichmann, conforme observado por Arendt, apresentou um novo tipo de problema. Ele não era “mau” no sentido convencional, mas no que parecia ser uma nova maneira. Ele era mau, mas também era normal. Sua maldade era cotidiana, sim, mas mais do que isso, sua maldade derivava de sua ‘normalidade’. Isso implicava que o tipo de coisas que ele fez bem poderia ser feito por qualquer um de nós. Pode até significar que quanto mais ‘comuns’ formos, maior será a probabilidade de cometermos tais males.  

O perfil de Arendt de Eichmann sugeria algo ainda mais assustador do que até mesmo a suástica: que o locus do mal não devia ser encontrado em algum fenômeno localizado em outros, mas muito mais perto de casa. Por sua análise, todas as condições necessárias para a prática do mal existiam na pessoa humana e eram, portanto, passíveis, pelo menos em teoria, de cada pessoa humana observar em si mesma. Foi, ela propôs a própria banalidade de Eichmann que o tornou propenso a ser infectado pela maldade. Ela postulou que a capacidade para o mal surge quando pessoas comuns, como zumbis, irrefletida e negligentemente, executam as instruções derivadas ou da autoridade ou de seus papéis ou funções designados.

Talvez Eichmann tenha sido o primeiro NPC. * Arendt observou, por exemplo, que ele parecia incapaz de proferir uma única frase que não fosse um clichê. Seu mal surgia de sua estupidez, de sua incapacidade de pensar, ou seja, de sua incapacidade de dialogar consigo mesmo. Ele proferia apenas palavras dadas a ele por outras pessoas. Outra maneira de dizer isso seria dizer que ele era um homem sem um self, sem um ‘eu’. Ele podia conversar consigo mesmo ou com outros apenas na linguagem que lhe fora dada. Ele não tinha nenhum senso interno do absoluto. Seu ‘absoluto’ consistia em seu dever de fazer o que lhe era ordenado. Essa síndrome, de fato, estava no cerne do projeto nazista – a ideia de que você poderia fazer leis para tornar quase tudo legal. Os juízes de Nuremberg tiveram que erguer o olhar em direção ao céu antes mesmo de formularem suas acusações.

Naquele mesmo ano, essa ideia do mal parecia ser confirmada pelo que ficou conhecido como o experimento Milgram, batizado em homenagem ao seu líder Stanley Milgram, que supervisionou o projeto de pesquisa homônimo na Universidade de Yale. Os participantes foram convidados a fazer o papel de ‘professores’ e administrar choques elétricos a ‘alunos’, pessoas que eles presumiram serem outros participantes. Os ‘alunos’, invisíveis mas audíveis em outra sala, eram atores; sem o conhecimento dos “professores”, os choques elétricos não eram reais.

Os relatórios originais do experimento sugerem que o objetivo era verificar a extensão da disposição dos participantes de infligir dor, angústia e coisas piores a outras pessoas se instruídas a fazê-lo por figuras de autoridade. Os resultados foram preocupantes. Dois terços dos sujeitos estavam dispostos a chegar a um ponto em que, se tivessem administrado choques elétricos de verdade, os “alunos” teriam morrido. A conclusão central do projeto foi que as pessoas “comuns” são extraordinariamente dispostas a infligir dor e terror se ordenadas a fazê-lo pelo que acreditam ser uma autoridade legítima, neste caso Homens de Jaleco Branco.

Um exame mais recente dos arquivos de Stanley Milgram na Universidade de Yale, no entanto, revelou uma imagem mais ambígua. O principal fator emergente dos registros de Milgram foi que os voluntários em seu experimento foram informados, repetidamente, de que estavam envolvidos em um experimento científico dirigido a alcançar um objetivo progressivo no bem comum, que suas contribuições honestas para o experimento ajudariam a expandir o conhecimento humano de técnicas de aprendizagem eficazes e, portanto, era nobre.

Stephen Reicher, Alex Haslam e Jay Van Bavel, três cientistas que buscaram desenvolver essas ideias em uma série de experimentos para um programa de TV da BBC de 2002, escreveram na revista Prospect no ano passado que aqueles que impõem maiores danos são ‘aqueles que se identificam mais com o projeto científico e acreditam que estão ajudando no avanço de uma causa progressista. Isso constitui um “bem maior” que justifica qualquer dano imposto.’

Dez anos após o experimento de Milgram, o Stanford Prison Experiment, perseguindo um enredo não diferente envolvendo ‘guardas da prisão’ e ‘prisioneiros’, chegou à conclusão de que todos nós carregamos conosco profundezas ocultas de sadismo aguardando o gatilho certo, que as pessoas comuns estão dispostas a fazer coisas horríveis, uma vez com o pretexto de alegar que estão “apenas seguindo ordens”, que os atos maus podem ser o resultado das circunstâncias e não do caráter e da escolha.

Mas, novamente, outra intervenção pública recente de Reicher, Haslam e Van Bavel sugere, com base no escrutínio de vídeos e gravações de som do Experimento da Prisão de Stanford, que, em vez de os guardas se conformarem a papéis por conta própria, os participantes “agiram” como durões porque os experimentadores diretament os incentivaram a fazê-lo. Os resultados, então, surgiram não naturalisticamente, mas como resultado de uma orientação e conformação explícita do experimento. Novamente, os ‘guardas’ receberam, repetidamentem, instruções de que estavam participando de um experimento que contribuiria para o desenvolvimento de regimes prisionais mais humanos. Como com Milgram, o experimento Standford foi acompanhado por garantias de virtude subjacente relacionadas à exploração, no interesse da ciência, das profundezas mais sombrias da natureza humana.

Escrevendo na revista The Psychologist em agosto de 2018, Reicher, Haslam e Van Bavel declararam: ‘Nossos livros didáticos e nossas palestras terão que ser reescritos. A história do que aconteceu na SPE e porque tal brutalidade ocorreu terá que ser recontada.’

Esses pesquisadores também descobriram que os truques psicológicos utilizados nos experimentos de Milgram e Stanford seguiram padrões notavelmente semelhantes, em particular no modo como os voluntários foram informados de que, para que o experimento tivesse credibilidade, eles precisavam ir além do limite possível em infligir dor e brutalidade, respectivamente a ‘alunos’ e prisioneiros ‘. Reicher, Haslam e Van Bavel declararam: ‘Longe de serem instruídos a servir a uma causa nociva, em ambos os estudos [os participantes] são convidados a colaborar em uma causa nobre (de fato, em seus cadernos experimentais, o próprio Milgram pondera se seus estudos poderiam ser melhores entendida como cooperação em vez de obediência). Onde os participantes obedientes nestes estudos são normalmente caracterizados como fazendo mal a vítimas impotentes, do ponto-de-vista dels eles estavam contribuindo a importante pesquisa concebida para ajudar os outros.’

Não é, então, meramente uma questão de obediência aos Homens de Jaleco Branco, não simplesmente que os humanos tenham uma predisposição “natural” para fazer o mal sob a instrução de figuras de autoridade, mas que seu desejo de fazer o bem pode levá-los a cruzar os limites sem entender que o que estão fazendo é perverso. Se as pessoas puderem se convencer de que estão envolvidas em um projeto moral, estarão mais propensas a suspender a empatia pelos outros. Como Reicher, Haslam e Van Bavel disseram: ‘Uma das maneiras mais certas de conduzi-los ao mal é convencê-los de que estão fazendo o oposto.’

* NPC é um acrônimo usado em videogames para ‘personagem não-jogador’, ou seja, um personagem que não responde à intervenção do jogador, que se insinuou no discurso dominante como sinônimo de ‘normie’, ou alguém que se apresenta ou se comporta como um autômato em público, alguém sem capacidade de se envolver com ideias. 

John Waters  é um escritor e comentarista irlandês, autor de dez livros e dramaturgo.

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Editorial

Colunista do Conselho Internacional de Psicanálise.

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