Post de Marcelo Ferreira Caixeta em seu Facebook:
Análise psiquiátrica da moça que esfaqueou o cabeleireiro porque não gostou da franja cebolinha.
A recente notícia da moça que esfaqueou um cabeleireiro porque não gostou da “franjinha estilo Cebolinha” que ele teria feito nela é mais um exemplo dramático de como o Brasil, o Estado, o Governo e a própria Justiça perderam completamente a capacidade de compreender o fenômeno psiquiátrico da violência.
Antes mesmo de entrar nos aspectos psiquiátricos do caso, (em tese teorica , pois nao se trata de um exame clinico) um detalhe chama profundamente a atenção: segundo as notícias, essa moça foi levada à delegacia, conversou normalmente, recebeu orientação para procurar “tratamento psicológico” e foi imediatamente liberada. Ou seja: uma pessoa que desferiu uma facada extremamente violenta e certeira na região cervical superior de outro ser humano — algo potencialmente letal e com enorme risco de tetraplegia — foi tratada praticamente como alguém envolvido em uma discussão banal de cotidiano. Delegada aliviou para lesao corporal uma clara tentativa de homicidio. Isso é a “justiça” do Governo.
E aqui está o primeiro ponto fundamental: o cabeleireiro só não morreu ou ficou tetraplégico porque outro profissional conseguiu aparar ou desviar parcialmente o golpe. Caso contrário, provavelmente estaríamos diante de mais uma tragédia nacional televisionada, seguida das habituais análises sociológicas, jurídicas, policiais e midiáticas vazias.
O episódio mostra, de maneira brutal, a incapacidade do Estado moderno de lidar com crimes patológicos.
Nitidamente trata-se de uma pessoa profundamente desequilibrada. Nitidamente trata-se de um quadro compatível com grave transtorno de personalidade, provavelmente um transtorno narcísico importante, associado a impulsividade agressiva, baixa tolerância à frustração e reação desproporcional diante de uma chamada “ferida narcísica corporal”.
A própria justificativa da agressão revela isso: a paciente teria afirmado que recebeu uma “franja de Cebolinha”. Ou seja, uma alteração estética banal foi vivida como ataque devastador à própria autoimagem, ao narcisismo corporal e à identidade subjetiva. A partir daí surge uma reação homicida.
Isso não é simples “raiva”.
Isso não é mero “descontrole”.
Isso não é apenas “violência social”.
Isso é, muito provavelmente, patologia psiquiátrica grave associada à agressividade.
E o mais impressionante é que o sistema inteiro parece incapaz de enxergar isso.
A Justiça brasileira e o Governo brasileiro passaram décadas destruindo sistematicamente a psiquiatria forense, os hospitais psiquiátricos judiciários e qualquer forma séria de contenção psiquiátrica de indivíduos potencialmente perigosos. Criou-se uma mentalidade garantista e coitadista na qual praticamente todo agressor é visto apenas como “vítima da sociedade”, enquanto a população real fica completamente desprotegida.
Hoje, qualquer tentativa de discutir psiquiatria da violência imediatamente é atacada como “preconceito”, “biologização”, “criminalização da pobreza”, “estigma” ou “manicomialismo”. Resultado: indivíduos claramente perigosos permanecem circulando livremente até produzirem tragédias maiores.
É importante entender que reconhecer a existência de crime patológico não significa “livrar criminoso”. Pelo contrário. Muitas vezes significa justamente defender medidas muito mais duras e prolongadas de contenção.
Em muitos casos, uma pessoa nessas condições não deveria simplesmente “assinar um termo” , ser aconselhada pelo delegado, encaminhada a psicóloga e voltar para casa. Deveria ser submetida imediatamente a avaliação psiquiátrica forense rigorosa, diagnóstico estrutural de personalidade, análise de impulsividade, risco homicida, potencial reincidência e eventual necessidade de internação psiquiátrica de custódia.
Mas o Brasil atual praticamente aboliu essa lógica.
Destruiu hospitais psiquiátricos forenses.
Demonizou a psiquiatria forense.
Transformou qualquer contenção psiquiátrica em tabu ideológico.
E o resultado é exatamente esse: agressões bizarras passam a ser tratadas como episódios cotidianos de “lesão corporal leve”, mesmo quando houve clara intenção potencialmente homicida.
Observe o absurdo técnico da situação: juridicamente fala-se em “lesão leve” apenas porque a vítima sobreviveu sem sequelas graves. Porém o mecanismo da agressão foi extremamente grave. A faca foi direcionada à região cervical alta, área sabidamente letal e associada a risco de tetraplegia. Em medicina e psiquiatria forense isso importa enormemente, porque revela impulsividade destrutiva e potencial homicida muito superior ao resultado final ocasional.
Em outras palavras: o fato de a vítima ter sobrevivido não diminui necessariamente a gravidade psiquiátrica do agressor.
Em qualquer sociedade minimamente séria, isso levantaria discussão imediata sobre periculosidade psiquiátrica.
Mas no Brasil contemporâneo, dominado por uma visão antipsiquiátrica, sociologizante e sentimentalista, prefere-se fingir que tudo é mero problema social ou emocional passageiro.
A consequência disso é previsível: novas tragédias continuarão acontecendo.
E depois todos fingirão surpresa.
visão antipsiquiátrica, sociologizante e sentimentalista, prefere-se fingir que tudo é mero problema social ou emocional passageiro.
Comentários
Nil Dani
Concordo, dr, mas se fosse o contrário, o cabelereiro seria preso e o MP o denunciaria por homícídio doloso na forma tentada, pois estão usando a ” perspectiva de gênero misãndrico para julgar.
Nil Dani Seria “tentativa de feminicídio”, que é mais grave do que matar um homem.
Ezequiel Amos
A delegada indiciou por lesão corporal .
Isso foi tentativa de homicídio.
Vale uma análise psiquiátrica da delegada também.
Regina Aparecida da Silva
Vi uma reportagem sobre esse episódio
E não foi nem o cabeleireiro que cortou a franja dela
Ele fez mechas a mês atrás
Ronaldo Wrobel
O artigo publicado no site G1 dá destaque ao corte de cabelo, como se isso fizesse alguma diferença. Parece matéria sobre direito do consumidor misturado com questões de beleza. Nossa imprensa infantilizada e ideológica é um braço forte do sistema.
Imagem:
Screenshot de American Psycho, em que Christian Bale interpreta Patrick Bateman.





