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Um dos dois atiradores da escola Raul Brasil, em Suzano.*
A foto mostra a indiferença da esquerda para com as vítimas (mortos, familiares e amigos).

Massacre de Suzano-SP. Uma análise psiquiátrica. 

Por Marcelo Ferreira Caixeta.
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1) Evidentemente, não é uma análise clínica, médica, do caso, pois não examinei ninguém. É um estudo teórico, genérico, sobre situações semelhantes que já vivi na clínica diária e já estudei ou pesquisei na literatura psiquiátrica. Uma tese ensaística por analogia.
2) No caso de “atiradores em massa” adolescentes há, no mínimo, uma situação psicopatológica onde há elementos depressivos, e, em cima da depressão, há outros quadros psiquiátricos que se instalam. 
3) Isso é majorado pela adolescência, momento onde o cérebro sofre impacto intenso das revoluções hormonais. Há alterações na sinaptogênese\apoptose , alterações de fatores de crescimento neuronal, remodelação de circuitaria, adaptação de receptores neuroquímicos, desbalanço importante de transmissores intersinápticos, etc. Em termos mais simples, nesta fase há uma vulnerabilidade enorme para a emergência de doenças psiquiátricas graves. 
4) Um dos problemas que podem surgir é a disfuncionalidade de circuitos 5-hidroxi-triptaminérgicos, levando à depressão, raiva, paranoia, impulsividade suicida, compulsividade agressiva, obsessões ( p.ex., videogames ) , comportamentos aditivos ( p.ex. “vícios” ), transtornos da sexualidade, modificações brutais no ritmo nictemérico circadiano ( p.ex., “trocar o dia pela noite”, “passar a noite jogando e o dia morgado”), síndrome astênico-hipobúlico-anedônica ( “sem vontade fazer nada, sem prazer, desanimado”) . 
6) Esses problemas se agravam na sociedade moderna porque o adolescente é deixado “apodrecer” na sua inércia patológica pelos adultos, que querem “respeitar o direito e o espaço dele”, não querem “obrigá-lo a nada , para não ferir suas suceptibilidades”. Entregue à “Deus-dará” essas patologias só aumentam. Antigamente muitos adolescentes suplantavam isso indo trabalhar, estudar, ocupar-se, ir para Igreja, socializar com a família, nem que fosse “debaixo de peia”. Hoje eles não têm mais esses mecanismos sócio-familiares-religiosos protetores. 
7) Deprimidos e raivosos, enfiados em um quarto, tornam-se zumbis . Fáceis vítimas de bullying, fáceis vítimas de ressentimentos , invejas, ciúmes : “sou feio, as meninas não olham para mim, tenho ódio daquele bonitão da escola, me humilham porque não estou dando conta das tarefas, sou tido como um zumbi\vampiro\estranho\freak\esquisito\repulsivo entre eles”. 
8 \ Sem tomar sol, sem fazer exercício, sem uma dieta adequada ( frutas e verduras), suas vitaminas D abaixam, endorfinas abaixam, serotonina abaixa, ácido fólico abaixa, L-metil-folato abaixa, ômega-3 abaixa, melatonina abaixa, etc etc, tudo isso piora o quadro psiquiátrico, pois são substâncias precursoras de neurotransmissores importantes.
9) tentam se tratar com energéticos, cafeína, açaí, maconha, guaraná, ritalina\metilfenidato, psico-estimulantes de toda natureza. Só piora o quadro psiquiátrico. 
10\ Com a idade provecta de pais e mães ( tendo filhos mais tarde ou muito tarde ) , há um aumento de distúrbios psiquiátricos do espectro autístico, p.ex., Asperger. Muitos aspergers têm dificuldades sociais, dificuldades em entender os sentimentos dos outros, intimidade e lazer, dificuldades em relacionamentos amorosos, sofrem mais que os outros em termos de bullying e os outros problemas assinalados acima.
11\ Muitos Aspergers e também adolescentes hiperativos ( há também aumento dessa patologia atualmente ) têm problema de “empatia”, por causa de um déficit na região cerebral frontal. Esse déficit emocional, déficit de empatia , frieza afetiva, fazem com que tais pacientes não avaliem bem a dor insuportável ou as consequências de se retirar a vida de alguém ou seu ente querido.
12\ A mídia mostrou um “caderno de videogames” de um dos atiradores de Suzano. Ele descrevia os jogos de violência como quem fez o massacre real. Fantasia lúdica e realidade misturaram-se em sua mente , algo que pode fazer pressupor um “nerd sem-noção”, um infantilismo que pode ser encontrado em aspergers, em adolescentes criados dentro de casa, filhos só-de-mamães-ou-vovós, pais ausentes-ou-apagados, o garoto o dia inteiro no game, sem ocupação útil nenhuma, à Deus-dará. 
13\ para alguns aspergers ou do espectro autístico, é comum a mistura lúdica da fantasia com a realidade, eles são “ingênuos”, desconectados da realidade normal em prol da virtual, sem contato adequado com o mundo afetivo-social. Vivendo num mundo de games, e com depressão\agressão causada pela baixa de serotonina, está montada a mistura explosiva. “Vou atuar minha fantasia na realidade, não importo de matar, não importo de morrer, não gosto de ninguém, ninguém também não gosta de mim, aliás, nem sei bem o que é isso de gostar ou não gostar”. 
14\ A violência dos videogames, ( turbinada pelos hormônios agressivos-hiperativos da adolescência) , associa-se ao espírito de gangue, espírito de grupo. Esse espírito de gangue-grupo piora a paranóia, piora o “nós-contra-eles”, “nós-contra-a-sociedade”, “nós, os meninos-perdidos-da-Terra-do-Nunca” contra os “adultos-perversos-da-tripulação-do-Capitão-Gancho”. Se fortalecem na noção “vamos-morrer-juntos”, “nosso grupo lutará contra o deles até o fim”. Unem-se no afeto e na paranóia. Mais uma vez, nenhum adulto para romper esse ciclo. A ausência do mundo adulto ( “responsabilidade, ocupação, proteção, direcionamento, disciplina, ordem, hierarquia, pai, Deus”) deixa esse mundo psicopatológico do adolescente à deriva, aumenta a “imaturidade lúdica” do mundo em que eles vivem ( “jogos de guerra de videogames”). Se a esses jogos imaturos irresponsáveis\insensíveis ajunta-se uma agressividade\depressão, está pronta a fórmula para a tragédia. 
Sem amor\disciplina de um adulto, o “mundo dos jogos de guerra” se instala numa realidade psicótica. Tudo é ação e violência, não há o nuance do humano, do cuidar, do amor, do concernimento, do afeto profundo, do sacrifício pelo outro. 
15\ Esses mecanismos descritos acima, de baixa de serotonina, depressão\paranóia, também podem estar presentes em adolescentes não-asperger, não-autistas. Aí eles podem ir menos para a dimensão lúdica\nerd\sem-noção da patologia\inafetiva da patologia e mais para uma dimensão depressiva paranóica da psicopatologia. Alguns, mais velhos, mais inteligentes, podem associar-se à companheiros ou discípulos mais novos, com psicopatologias análogas, mais influenciáveis, mais imaturos ou menos inteligentes, numa espécie de loucura compartilhada, “folie à deux”.
16\ A isso tudo ajunta-se uma sociedade que quer “proteger o adolescente do patriarcalismo”, que o deixa fazer o que quer, sem ocupação, sem castração, sem figuras masculinas de ordem e disciplina, sem a figura máscula autoritária de um homem que os amou e sacrificou-se por eles. A sociedade excessivamente feminilizada favorece a des-responsabilização e “ludização” da mente adolescente.
17\ Tentativas externas de disciplina e controle são vistas pelas mães, avós, sociedade, como algo truculento, machista, autoritário, traumático, invasivo, perturbador do “mundinho adolescente deles”. 
18\ Num contexto de possíveis tratamentos, terapias , conversas, orientações, grupos de reflexão, etc, com psicólogas são até bem aceitos, pois são sucedâneos da feminilidade, da “proteção, do amor, do diálogo, do humanismo”. Mas a truculência e o estigma do dignóstico\tratamento psiquiátricos são evitados como o diabo foge da cruz. Hospitalização psiquiátrica para os casos graves e insolúveis, então, nem se fala… “Jamais vou submeter meu filho a um trauma desses coitado”. “Tadinho, ele teve falta de um pai, só isso”, é “caso de terapia, não da truculência de remédios e internação”. 
19\ por isso que, em casos como esses ( os EUA já têm vários estudos à respeito ), já estão notando a onipresente associação com problemas psiquiátricos graves, a ponto do atual presidente dos EUA, Donald Trump ter dito que “o problema da assistência psiquiátrica” a esses casos é, para ele, muito mais grave do que a deletéria exposição a armas a que são submetidos os cidadãos americanos. Infelizmente, o estigma da psiquiatria, a fraqueza de entidades médicas psiquiátricas que não divulgam, o preconceito da sociedade, serão prenúncios de outras e muitas tragédias do mesmo matiz e jaez. 
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Marcelo Caixeta é médico, especialista em psiquiatria da infância e do adolescente pela Universidade de Paris XI ( Le Kremlin-Bicêtre ) e pós-graduado em psiquiatria da infância e adolescência pela Universidade de São Paulo.

* Dentre as diretrizes do site, está não dar publicidade a autores desse tipo de atrocidade.

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Editorial

Colunista do Conselho Internacional de Psicanálise.

Divulgação

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